Horror = humor

(Divulgação)

O que têm em comum personalidades tão diversas quanto o curador e crítico de arte Agnaldo Farias, o músico Samuel Rosa, líder do Skank, o chef Alex Atala, dono do D.O.M., o empresário e colecionador Tibira e o diretor da Biblioteca Mario de Andrade, Charles Cosac? Todos têm obras de Rafael Silveira em suas paredes. Diversidade e diversão, eis algumas das marcas das telas, instalações e objetos multimídia deste curitibano de 37 anos – mas não só: a morte, o horror e a lisergia mais vertiginosa também rondam seu universo pictórico. O repórter perambulou pela vernissage de Silveira no Espaço de Exposições do Centro Cultural Fiesp num domingo ensolarado de fevereiro e notou que as expressões dos visitantes se repartiam entre sustos e sorrisos (enquanto isso, o repórter observava sua filha de seis anos pular loucamente sobre o sorvete-pufe, hit da exposição, e pensava: em quais outras exposições se juntam senhores severos com a mão no queixo, hipsters em busca de cenários para selfies e crianças malucas?).

Por sorte, deu para tomar um café com o artista no saguão e matar curiosidades. Descobriu-se que: Silveira também é músico; já fez quadrinhos; é formado em artes gráficas e trabalhou com propaganda; a partir da pintura a óleo, técnica onipresente em seu trabalho, encadeia narrativas misturando botânica, bordado, circo, tatuagem, objetos cinéticos, clichês de publicidade dos anos 1950 e catálogos de moda do século XIX; e trabalha direto com sua esposa, a tecelã Flávia Itiberê. Em Circonjecturas, nome da exposição em cartaz na pirâmide da Fiesp, o público é convidado a entrar e interagir com a paisagem gráfica que toma conta do espaço expositivo – uma grande instalação imersiva, em que iluminação, sonorização e obras são dispostas de modo a criar uma experiência onírica e espiritual, fazendo com que o próprio público multifacetado de um domingo da avenida mais circense de São Paulo se metamorfoseasse no ambiente. Para ter uma ideia de como foi nosso café com Silveira, fica a sugestão: sua voz rima trompete com sorvete e solventes.

Por que essa fixação no imaginário norte-americano dos anos 1950?

Não são  só os anos 1950… Começa muito mais longe, nos artistas das expedições científicas do século XVI, passando por rococó, artes gráficas da era vitoriana, art nouveau e, daí sim, anos 1950, 1960, 1970. Creio que essa fixação por um imaginário, digamos assim, “vintage”, está relacionado ao poder que a imagem impressa antiga emana, esse poder que vem de um profundo inconsciente coletivo.

O surrealismo é singular em sua obra, mas me parece um movimento que não teve muita ressonância no Brasil. Por quê?

“Flor ou Fato”, de Rafael Silveira e Flávia Itiberê.

Acho que essa classificação do trabalho artístico é uma tarefa difícil, que eu deixo para curadores, críticos de arte, jornalistas… Não busquei esse surrealismo, não pesquisei especificamente esse movimento, esse componente emergiu de forma bem orgânica. Sou um pouco cético com relação a essas classificações, pois tentam delimitar algo complexo, então acaba sempre caindo em uma simplificação constrangedora.

Amor, morte, bichos escrotos e cores fofinhas convivem numa boa nas suas imagens. Você acha a morte uma coisa fofa?

Já conheci a morte de perto. Não é fofa, não. No meu trabalho, penso em esqueletos e vísceras muito mais como algo que está vivo e escondido por paredes de carne e pele. É como se cada pessoa fosse em seu interior uma dimensão paralela, feita de pensamentos, protegidos por camadas de ossos, órgãos e fluidos.

Como assim conheceu a morte de perto?

Minha irmã faleceu aos 33 anos (na época eu tinha 29). Não gosto de comentar muito esse assunto, pois é muito triste. O que posso dizer é que foi por escolha própria dela.

Como foi sua infância? Feliz? Assustadora?

O ambiente nos anos 1980 era muito selvagem, ninguém falava em bullying,
a violência física e psicológica apenas corria solta como algo normal. Depois de muita porrada me tornei um tanto introspectivo.

Teve problemas na escola?

De 1978 a 1987 morei em Paranaguá, cidade próxima a Curitiba. Crianças em geral tendem a ser cruéis. Naquela época não havia essa vigília de celulares filmando o tempo todo, muita coisa acontecia sem que ninguém estivesse vendo… Era meio selvagem. Não acho que foi algo específico comigo. Qualquer criança que deixasse transparecer alguma fragilidade virava um prato cheio.

Tatuagens e quadrinhos também são interlocutoras de seu trabalho, não?

Minhas origens mais primitivas trazem muita informação gráfica dos quadrinhos e tatuagens. Após vinte anos frequentando a cena underground, as tattoos e fanzines acabam virando parte do imaginário.

Imagino que Edgar Allan Poe esteja no topo da cadeia alimentar das suas referências literárias…

Também posso citar Kafka e Augusto dos Anjos… Não utilizei ainda, mas é uma boa. Preciso ler mais!

Com que obras e artistas você acha que dialoga no cenário brasileiro e internacional?

No Brasil, acho que minha obra dialoga com coisas muito antigas, de artistas que não são bem brasileiros, mas tem o Brasil como tema: Rugendas, Eckhout, Martius e Spix. Nos internacionais, gosto muito de Audubon, Gil Elvgren,
Haddon Sundblon, além de muita influência das artes gráficas do século XIX.

Sobre a aproximação entre horror e humor: você conhece o trabalho do Mark Ryden? E Tim Burton, é uma linha a dialogar? Seu trabalho se enquadraria na estética “horror fofinho” ou horror bem-humorado?

Conheço e adoro o trabalho do Ryden. É um monstro da pintura, sem dúvidas! O Tim Burton certamente é genial, adoro. Não sei se consigo ser fofinho… Mas nas minhas obras quase sempre tem uma carga de humor. Não sei explicar o porquê, vem muito da minha personalidade. Me interessa caráter provocativo do humor.

Você é um artista bastante figurativo. Mas também flerta com a instalação, a performance e ambientes imersivos. Como foi seu percurso artístico?

Comecei criança, fazia meus próprios gibis… Depois, adolescente, descobri que isso se chamava fanzine e me arrisquei fazendo alguns. Depois fiz cartazes de show, capas de disco, ilustrações para revistas, livros… Até começar a pintar a óleo. Fiz faculdade de artes plásticas (não concluí). Sou formado em publicidade (trabalhei dez anos na área). Penso que ter banda deixa o sujeito meio multimídia. A vivência na publicidade também tem muito disso. Precisar de faculdade, não precisa não. Mas aprendi coisas valiosas no meu percurso ­acadêmico.

Em que trabalho você se sentiu realmente artista, sentiu que tinha uma obra, uma voz própria?

A capa para o disco do Skank, Estandarte, de 2008, foi muito bacana. Uma banda grande que me deu liberdade total para criar. Nem tema me deram, nada. Entregaram o trabalho para mim e disseram: você é o artista. Foi um divisor de águas para mim.

Você fez algumas exposições solo, é representado pela galeria Choque Cultural, vai lançar um livro em breve. Para quem saiu do underground, é um percurso e tanto. Você planejou sua carreira? Se sim, quais os próximos passos?

Não planejei muito não, apenas trabalho duro com objetivos mais próximos. O próximo passo certamente é o livro! Quero também fazer uma exposição “solo” em duo com minha esposa, Flávia Itiberê, só com os bordados que estamos criando juntos. Penso que vai sair muita coisa interessante dessa parceria.

Já tem alguma ideia pra esse livro*?

Está quase pronto. É um apanhado de quase uma década de produção. Tem as obras, as exposições recentes e fotos de processo. Tem também um ensaio que está sendo escrito pelo curador Agnaldo Farias. Estou muito entusiasmado com o livro. Eu adoro livros, tenho um carinho especial por eles, e esse vai sair caprichado.

Como é seu método de trabalho? Desenha a lápis, depois repassa pra tela? Usa nanquim? Usa computador?

Uso de tudo… Especialmente lápis para esboçar e desenhar e computador (para estudos de cor e composição).

Você vai pra obra já sabendo o que fazer? É mais intuitivo ou mais cerebral?

Os dois! Há dois momentos bem distintos. Quando eu crio, tudo ocorre de forma caótica e orgânica, não sei ao certo nem controlo o que está acontecendo. Disso surgem esboços grosseiros, quase que meras anotações mesmo. Num segundo momento, transformo esses rascunhos em obras pictoricamente complexas, é um trabalho minucioso, metódico, cerebral. Nessa etapa, eu gosto de ter o controle.

Como é sua pesquisa de cores?

Coleciono paletas de cores. Elas podem vir de uma foto, uma litografia antiga, uma embalagem de fósforo indiano, uma capa de HQ, um cartaz de filme… As fontes são as mais diversas. É importante para o artista ter uma pesquisa visual constante. Sou obsessivo com isso, faço por prazer.

Já pensou em fazer quadrinhos ou animação?

Já fiz… Cheguei a publicar pela Dark Horse em uma antologia chamada New Recruits, com uma HQ de umas trinta páginas. Era um trabalho bem experimental, não sei como eles aprovaram isso, hahahaha! Eu assinava como RHS, minhas iniciais. Não tenho novos quadrinhos no horizonte, mas certamente carrego comigo uma forte influência desta linguagem. Não sinto que eu precise exercer esta influência de forma literal. Ela pode entrar de tempos em tempos em minhas obras. Pode ser uma pintura, uma instalação, quem sabe um filme… Animação nunca… Seria bacana!

O circo é outra grande influência sobre seu trabalho. Você frequentava circo? Já pensou em fugir com um circo? Se sim, seria trapezista, domador de leões, palhaço ou mágico? Namoraria a Mulher-Barbada ou as Gêmeas Siamesas?

Ia muito quando criança, sim. Não fugiria, mas dessas opções creio que seria o mágico, hahaha! Quanto a namorar, adoro minha esposa, não consigo nem imaginar outra pessoa… Quando era mais novo, gostava mais desse universo freak. Com o tempo fui me afastando. Gosto dos banners de sideshows, já fui em sideshow. Mas confesso que prefiro o ponto de vista não literal do Charles Burns, que usa anomalias físicas para expressar questões psicológicas.

Aliás, fale um pouco sobre Flávia Itiberê. Como vocês se conheceram? Há quanto tempo estão juntos? Como ela influencia seu trabalho?

Nos conhecemos por meio de amigos em comum… Estamos há onze anos juntos. Ela vem da área de moda e trouxe uma série de referências desse universo. Aos poucos, a indumentária dos meus personagens passou a ter uma importância maior nas narrativas, e foi ficando mais interessante. Ela também é muito crítica e me faz melhorar as obras, em detalhes que eu não percebo…

Como é o processo de trabalho de um casal? Vocês mantêm um ateliê juntos? Quais os próximos passos dessa parceria, além da exposição?

A gente troca muita ideia sobre meus trabalhos, ela tem bons insights artísticos. Depois de todos esses anos, começamos a pensar em uma forma de oficializar essa participação dela nas obras… Criamos então essa categoria de obras têxteis, que traz a linguagem dela à tona, misturada com meus desenhos. Esses trabalhos têm uma feminilidade que eu nunca alcançaria sozinho e têm também um caráter mais contemporâneo. Penso que isso deve nos levar a lugares a que a minha arte não chegaria sozinha. Trabalhamos juntos, nosso ateliê é em casa mesmo, ficamos juntos quase o tempo todo. Por incrível que pareça, pra gente funciona bem. E nessa intensidade toda dá pra sentir que tem uma entrega artística muito grande, o que transfere para as obras uma espécie de… alma!

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* O livro sairá no segundo semestre deste ano pela SESI-SP Editora.

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Ronaldo Bressane

Ronaldo Bressane

Ronaldo Bressane é escritor e jornalista. Publicou, entre outros, Metafísica Prática (Oito e Meio) e Sandiliche (Cosac Naify).

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